Júlio N. Nogueira
Saí daquela sala com as duas e passei trinta anos sem fazer com elas a única coisa que elas pediam. Repeti a ideia em conversas. Usei-a numa apresentação que preparei em 2017 sobre o pensamento ético e filosófico de Jesus. Sustentei-a em argumentos que já me pareciam meus. Nunca conferi.
É uma confissão desconfortável para quem vive de exigir prova dos outros. Passei três décadas com uma convicção cuja única credencial era a autoridade de quem a entregou.
Trinta anos não transformam lembrança em prova.
Chamo isso de Herança Não Auditada: a ideia que você carrega há tanto tempo que já não distingue se a sustenta porque ela resiste ao exame ou porque quem a disse tinha o direito de ser ouvido. Você tem a sua. Quem estudou com alguém que admirou tem pelo menos uma.
O exame
Trinta anos depois, resolvi colocar a minha diante do espelho. Voltei a Jesus, o Mestre do Espírito, de Carlos Bernardo, e levei o que encontrei ali a dois autores sem nenhum compromisso com a minha memória afetiva: John P. Meier, em Um Judeu Marginal, e John Dominic Crossan, em O Jesus Histórico.
Meier impõe logo uma cautela que aceito inteira. O Jesus real e aquilo que chamamos de Jesus histórico não são a mesma coisa: o segundo é reconstrução necessariamente fragmentária, erguida com as fontes que sobreviveram e com os instrumentos de que a investigação histórica dispõe. O problema não é exclusivo dele. Reconstruir Sócrates esbarra na mesma dificuldade, e pela mesma razão: nenhum dos dois deixou tratado escrito de próprio punho, e conhecemos ambos por outras vozes. Isso recomenda prudência sem proibir a pergunta.
Dois itens da minha herança não passaram.
O primeiro é a genealogia. Carlos Bernardo lia Jesus dentro de uma trajetória longa do pensamento, que vinha de Anaximandro e de Anaxímenes e passava sobretudo por Sócrates. Procurei nas fontes que examinei a demonstração dessa cadeia direta de transmissão intelectual e não encontrei. Ela precisa ficar onde lhe cabe: chave interpretativa associada ao pensamento do meu professor, e não fato histórico que eu possa simplesmente afirmar.
O segundo é a distinção entre fábula e parábola pelo critério do animal e do homem. A formulação é dele, e não a encontrei assim nem em Meier nem em Crossan.
Registro as duas coisas porque auditar serve exatamente para isto: separar o que se demonstra do que se interpreta, e deixar cada afirmação no lugar intelectualmente correto. A pergunta central, porém, não dependia de nenhuma das duas.
De Sócrates à parábola
Os primeiros filósofos gregos fizeram algo novo: passaram a interrogar racionalmente a realidade, formulando hipóteses, procurando princípios, discordando. Com Sócrates, o movimento muda de alvo e a pergunta se volta para o próprio homem. O que é justiça, o que é virtude, o que significa conhecer, como devemos viver. Deixa de bastar compreender o mundo; passa a importar como viver nele.
A aproximação que Carlos Bernardo fazia entre Sócrates e Jesus não supõe equivalência, e eles não são equivalentes. O que os aproxima está antes das respostas que oferecem: em ambos há um modo de fazer o interlocutor pensar. Sócrates pergunta, o interlocutor responde, vem nova pergunta, e a resposta começa a revelar as próprias insuficiências até que a certeza vire problema. A ironia abre espaço para a dúvida; a maiêutica convoca o interlocutor a participar da construção da compreensão. O conhecimento deixa de ser apenas aquilo que alguém deposita em você e passa a ser também o que nasce do seu próprio exercício de pensar.
Algo parecido acontece em determinadas construções atribuídas a Jesus. Alguém pergunta e espera resposta, mas recebe outra pergunta, uma imagem, uma situação concreta, uma história. O interlocutor precisa trabalhar: interpretar, reconsiderar, tomar posição.
É aqui que ficam as parábolas, e é aqui que a leitura de Carlos Bernardo resistiu ao exame. A parábola ocupa o centro do processo de comunicação. Jesus constrói a ideia dentro da história, em vez de ter a ideia pronta e procurar depois uma narrativa que a ilustre. A diferença é enorme.
Mais do que storytelling
Hoje descreveríamos parte desse mecanismo com uma palavra de mercado: storytelling. Personagem, contexto, tensão, escolha, consequência. Uma ideia abstrata vira experiência narrativa. A descrição está correta e é insuficiente. A função da parábola não parece ser apenas prender atenção ou facilitar memorização, porque a narrativa produz um deslocamento. Justiça ganha personagens; solidariedade ganha uma estrada; responsabilidade ganha talentos; perdão ganha uma dívida; compaixão ganha um homem ferido. O conceito deixa de existir só como conceito e passa a ser experimentado mentalmente por quem ouve.
E há o detalhe que muda tudo. O personagem decide dentro da história, e quem escuta precisa decidir fora dela.
O que eu faria?
Nesse ponto a parábola ultrapassa a narrativa e vira experiência ética.
Crossan oferece um exemplo que ajuda. Ao analisar a parábola da mostarda, sua preocupação é recuperar o efeito inesperado que aquela imagem tinha para o ouvinte original: a mostarda não é apenas a pequena semente que cresce, pois, dependendo da espécie e do contexto, podia evocar uma planta invasiva e inconveniente. A expectativa de quem ouvia é deslocada pela própria narrativa. A surpresa participa da construção da ideia.
Sócrates usa a pergunta para que o interlocutor descubra; Jesus usa a narrativa para que o interlocutor interprete. Num caso: pergunta, contradição, reflexão, descoberta. No outro: história, conflito, deslocamento, interpretação, descoberta. Nada disso demonstra que Jesus tenha reproduzido a maiêutica socrática, e não preciso afirmar aquilo que as fontes não demonstram. A comparação que interessa é outra: nos dois casos, o interlocutor participa intelectualmente do processo. Foi lendo Crossan sobre a tradição formada a partir de Jesus que encontrei a frase que me devolveu à sala de 1996 — Jesus deixou “pensadores, e não memorizadores”. Difícil formular melhor a pergunta que me acompanha desde aquele ano.
Uma moeda
Há um episódio que concentra boa parte dessa arquitetura. Perguntam a Jesus sobre tributo: é lícito pagar a César? A estrutura da pergunta oferece duas saídas prontas, sim e não, e ele não permanece dentro dela. Pede uma moeda e pergunta de quem é a imagem. Antes de responder, faz o interlocutor responder.
O detalhe é extraordinário: objeto, pergunta, observação, resposta de quem tinha vindo perguntar e, somente então, conclusão. Pedir a moeda é pedir uma imagem, e é diante de uma imagem que alguém acaba se examinando.
Crossan inclui a formulação sobre dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus entre os materiais relevantes de sua reconstrução das palavras atribuídas a Jesus. O que me interessa aqui, porém, está antes da frase final: está no caminho até ela.
A moeda é uma só. É sobre uma única realidade concreta que ele constrói a distinção entre César e Deus, duas dimensões reconhecidas sem confusão e sem que uma precise ser eliminada para que a outra seja admitida. A pergunta inicial era sobre tributo; a resposta terminou tratando de limites, pertencimento, responsabilidade e consciência.
Perguntaram sobre dinheiro. A resposta produziu filosofia.
Não escapo de certa ironia pessoal nesta história. Em 1996 ouvi Carlos Bernardo falar sobre ética. Trinta anos depois, advogado tributarista, volto àquela aula e encontro no centro da reflexão justamente um tributo e uma moeda. A vida também tem os seus storytellings.
O que a auditoria devolveu
A hipótese central resistiu. Jesus utilizava narrativas de maneira extraordinária; as parábolas transportavam problemas éticos por dentro de situações humanas; o ouvinte precisava participar da interpretação; a pergunta podia valer mais do que a resposta oferecida pronta. E o método de comunicação não era separável da ideia comunicada. Crossan registra inclusive uma avaliação de Jesus como grande contador de parábolas, destacando a originalidade formal atribuída ao seu ensino ético.
Carlos Bernardo estava olhando para um problema que continua intelectualmente vivo.
O que o exame me devolveu, porém, vale mais do que a confirmação. Parei de defender o meu professor e passei a pensar com ele. A parte que caiu, caiu sem estrago e agora tem o nome correto. A parte que ficou, ficou minha, não porque um professor a disse, mas porque aguentou o confronto.
Quando você auditar a sua herança, a sensação é essa: a ideia deixa de ser lealdade e passa a ser instrumento.
A sua vez
Hoje penso diferente sobre 1996. Na época eu acreditava estar assistindo a uma aula de Ética, e talvez estivesse. Mas Carlos Bernardo ensinava também outra coisa: como perguntar, como duvidar, como confrontar, como não confundir autoridade com verdade e como procurar a ideia por trás das palavras.
Esopo colocou o homem dentro dos animais. Sócrates colocou a pergunta dentro do homem. Jesus colocou o homem dentro da história.
Na fábula, o animal assume atributos humanos. Na maiêutica, a pergunta obriga o homem a procurar. Na parábola, o homem observa outro homem diante de uma escolha e, enquanto acompanha a história, começa a examinar a própria. Talvez tenha sido isso que Carlos Bernardo Loureiro percebeu: as parábolas são parte da arquitetura do pensamento de Jesus, e o núcleo ético e filosófico que lhe atribuímos está menos nas respostas e mais na capacidade de criar uma situação em que a resposta precisa nascer em quem escuta.
Se eu pudesse voltar àquela sala hoje, seria para continuar a conversa. Diria ao professor que coloquei a ideia dele diante de Meier, diante de Crossan, diante dos textos e diante da apresentação que eu mesmo preparei em 2017. Algumas partes ficaram mais difíceis. Outras ficaram mais fortes.
Não foi a resposta que atravessou trinta anos. Foi a pergunta.
E agora é a sua vez. Escolha a convicção mais antiga que você carrega, aquela que veio de alguém que você admirava e que nunca passou por prova, e escreva-a em uma linha. Procure um autor com motivo para contradizê-la e leia até o fim. O que cair, deixe cair com o nome certo. O que ficar, passa a ser seu.
Foi o que fiz com a aula de 1996. Trinta anos depois, ela ainda não terminou.
Referências utilizadas no confronto
LOUREIRO, Carlos Bernardo. Jesus, o Mestre do Espírito. Obra utilizada como referência interpretativa na reconstrução do pensamento do autor.
MEIER, John P. Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico. Imago.
CROSSAN, John Dominic. O Jesus Histórico: A Vida de um Camponês Judeu do Mediterrâneo. Imago.
NOGUEIRA, Júlio N. Apresentação Pensamento Ético e Filosófico de Jesus e Kardec. 2017.






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