O pensamento ético e filosófico de Jesus na leitura de Carlos Bernardo Loureiro
Júlio N. Nogueira
Júlio N. Nogueira
Em 1996, numa sala da Escola Superior da Advocacia da OAB da Bahia, Carlos Bernardo Loureiro desmontou a aula de Ética que eu tinha ido assistir. Eu esperava a pergunta de sempre, a que se faz sobre Jesus desde a infância: quem ele era. Carlos Bernardo propôs outra investigação. O que Jesus pensava? E então veio a pergunta que nunca mais me largou: como Jesus fazia os outros pensarem?
Saí daquela sala com as duas e passei trinta anos sem fazer com elas a única coisa que elas pediam. Repeti a ideia em conversas. Usei-a numa apresentação que preparei em 2017 sobre o pensamento ético e filosófico de Jesus. Sustentei-a em argumentos que já me pareciam meus. Nunca conferi.
É uma confissão desconfortável para quem vive de exigir prova dos outros. Passei três décadas com uma convicção cuja única credencial era a autoridade de quem a entregou.
Trinta anos não transformam lembrança em prova.
Chamo isso de Herança Não Auditada: a ideia que você carrega há tanto tempo que já não distingue se a sustenta porque ela resiste ao exame ou porque quem a disse tinha o direito de ser ouvido. Você tem a sua. Quem estudou com alguém que admirou tem pelo menos uma.
O exame
Trinta anos depois, resolvi colocar a minha diante do espelho. Voltei a Jesus, o Mestre do Espírito, de Carlos Bernardo, e levei o que encontrei ali a dois autores sem nenhum compromisso com a minha memória afetiva: John P. Meier, em Um Judeu Marginal, e John Dominic Crossan, em O Jesus Histórico.
Meier impõe logo uma cautela que aceito inteira. O Jesus real e aquilo que chamamos de Jesus histórico não são a mesma coisa: o segundo é reconstrução necessariamente fragmentária, erguida com as fontes que sobreviveram e com os instrumentos de que a investigação histórica dispõe. O problema não é exclusivo dele. Reconstruir Sócrates esbarra na mesma dificuldade, e pela mesma razão: nenhum dos dois deixou tratado escrito de próprio punho, e conhecemos ambos por outras vozes. Isso recomenda prudência sem proibir a pergunta.
Dois itens da minha herança não passaram.
O primeiro é a genealogia. Carlos Bernardo lia Jesus dentro de uma trajetória longa do pensamento, que vinha de Anaximandro e de Anaxímenes e passava sobretudo por Sócrates. Procurei nas fontes que examinei a demonstração dessa cadeia direta de transmissão intelectual e não encontrei. Ela precisa ficar onde lhe cabe: chave interpretativa associada ao pensamento do meu professor, e não fato histórico que eu possa simplesmente afirmar.
O segundo é a distinção entre fábula e parábola pelo critério do animal e do homem. A formulação é dele, e não a encontrei assim nem em Meier nem em Crossan.
Registro as duas coisas porque auditar serve exatamente para isto: separar o que se demonstra do que se interpreta, e deixar cada afirmação no lugar intelectualmente correto. A pergunta central, porém, não dependia de nenhuma das duas.
De Sócrates à parábola
Os primeiros filósofos gregos fizeram algo novo: passaram a interrogar racionalmente a realidade, formulando hipóteses, procurando princípios, discordando. Com Sócrates, o movimento muda de alvo e a pergunta se volta para o próprio homem. O que é justiça, o que é virtude, o que significa conhecer, como devemos viver. Deixa de bastar compreender o mundo; passa a importar como viver nele.
A aproximação que Carlos Bernardo fazia entre Sócrates e Jesus não supõe equivalência, e eles não são equivalentes. O que os aproxima está antes das respostas que oferecem: em ambos há um modo de fazer o interlocutor pensar. Sócrates pergunta, o interlocutor responde, vem nova pergunta, e a resposta começa a revelar as próprias insuficiências até que a certeza vire problema. A ironia abre espaço para a dúvida; a maiêutica convoca o interlocutor a participar da construção da compreensão. O conhecimento deixa de ser apenas aquilo que alguém deposita em você e passa a ser também o que nasce do seu próprio exercício de pensar.
Algo parecido acontece em determinadas construções atribuídas a Jesus. Alguém pergunta e espera resposta, mas recebe outra pergunta, uma imagem, uma situação concreta, uma história. O interlocutor precisa trabalhar: interpretar, reconsiderar, tomar posição.
É aqui que ficam as parábolas, e é aqui que a leitura de Carlos Bernardo resistiu ao exame. A parábola ocupa o centro do processo de comunicação. Jesus constrói a ideia dentro da história, em vez de ter a ideia pronta e procurar depois uma narrativa que a ilustre. A diferença é enorme.
Mais do que storytelling
Hoje descreveríamos parte desse mecanismo com uma palavra de mercado: storytelling. Personagem, contexto, tensão, escolha, consequência. Uma ideia abstrata vira experiência narrativa. A descrição está correta e é insuficiente. A função da parábola não parece ser apenas prender atenção ou facilitar memorização, porque a narrativa produz um deslocamento. Justiça ganha personagens; solidariedade ganha uma estrada; responsabilidade ganha talentos; perdão ganha uma dívida; compaixão ganha um homem ferido. O conceito deixa de existir só como conceito e passa a ser experimentado mentalmente por quem ouve.
E há o detalhe que muda tudo. O personagem decide dentro da história, e quem escuta precisa decidir fora dela.
O que eu faria?
Nesse ponto a parábola ultrapassa a narrativa e vira experiência ética.
Crossan oferece um exemplo que ajuda. Ao analisar a parábola da mostarda, sua preocupação é recuperar o efeito inesperado que aquela imagem tinha para o ouvinte original: a mostarda não é apenas a pequena semente que cresce, pois, dependendo da espécie e do contexto, podia evocar uma planta invasiva e inconveniente. A expectativa de quem ouvia é deslocada pela própria narrativa. A surpresa participa da construção da ideia.
Sócrates usa a pergunta para que o interlocutor descubra; Jesus usa a narrativa para que o interlocutor interprete. Num caso: pergunta, contradição, reflexão, descoberta. No outro: história, conflito, deslocamento, interpretação, descoberta. Nada disso demonstra que Jesus tenha reproduzido a maiêutica socrática, e não preciso afirmar aquilo que as fontes não demonstram. A comparação que interessa é outra: nos dois casos, o interlocutor participa intelectualmente do processo. Foi lendo Crossan sobre a tradição formada a partir de Jesus que encontrei a frase que me devolveu à sala de 1996 — Jesus deixou “pensadores, e não memorizadores”. Difícil formular melhor a pergunta que me acompanha desde aquele ano.
Uma moeda
Há um episódio que concentra boa parte dessa arquitetura. Perguntam a Jesus sobre tributo: é lícito pagar a César? A estrutura da pergunta oferece duas saídas prontas, sim e não, e ele não permanece dentro dela. Pede uma moeda e pergunta de quem é a imagem. Antes de responder, faz o interlocutor responder.
O detalhe é extraordinário: objeto, pergunta, observação, resposta de quem tinha vindo perguntar e, somente então, conclusão. Pedir a moeda é pedir uma imagem, e é diante de uma imagem que alguém acaba se examinando.
Crossan inclui a formulação sobre dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus entre os materiais relevantes de sua reconstrução das palavras atribuídas a Jesus. O que me interessa aqui, porém, está antes da frase final: está no caminho até ela.
A moeda é uma só. É sobre uma única realidade concreta que ele constrói a distinção entre César e Deus, duas dimensões reconhecidas sem confusão e sem que uma precise ser eliminada para que a outra seja admitida. A pergunta inicial era sobre tributo; a resposta terminou tratando de limites, pertencimento, responsabilidade e consciência.
Perguntaram sobre dinheiro. A resposta produziu filosofia.
Não escapo de certa ironia pessoal nesta história. Em 1996 ouvi Carlos Bernardo falar sobre ética. Trinta anos depois, advogado tributarista, volto àquela aula e encontro no centro da reflexão justamente um tributo e uma moeda. A vida também tem os seus storytellings.
O que a auditoria devolveu
A hipótese central resistiu. Jesus utilizava narrativas de maneira extraordinária; as parábolas transportavam problemas éticos por dentro de situações humanas; o ouvinte precisava participar da interpretação; a pergunta podia valer mais do que a resposta oferecida pronta. E o método de comunicação não era separável da ideia comunicada. Crossan registra inclusive uma avaliação de Jesus como grande contador de parábolas, destacando a originalidade formal atribuída ao seu ensino ético.
Carlos Bernardo estava olhando para um problema que continua intelectualmente vivo.
O que o exame me devolveu, porém, vale mais do que a confirmação. Parei de defender o meu professor e passei a pensar com ele. A parte que caiu, caiu sem estrago e agora tem o nome correto. A parte que ficou, ficou minha, não porque um professor a disse, mas porque aguentou o confronto.
Quando você auditar a sua herança, a sensação é essa: a ideia deixa de ser lealdade e passa a ser instrumento.
A sua vez
Hoje penso diferente sobre 1996. Na época eu acreditava estar assistindo a uma aula de Ética, e talvez estivesse. Mas Carlos Bernardo ensinava também outra coisa: como perguntar, como duvidar, como confrontar, como não confundir autoridade com verdade e como procurar a ideia por trás das palavras.
Esopo colocou o homem dentro dos animais. Sócrates colocou a pergunta dentro do homem. Jesus colocou o homem dentro da história.
Na fábula, o animal assume atributos humanos. Na maiêutica, a pergunta obriga o homem a procurar. Na parábola, o homem observa outro homem diante de uma escolha e, enquanto acompanha a história, começa a examinar a própria. Talvez tenha sido isso que Carlos Bernardo Loureiro percebeu: as parábolas são parte da arquitetura do pensamento de Jesus, e o núcleo ético e filosófico que lhe atribuímos está menos nas respostas e mais na capacidade de criar uma situação em que a resposta precisa nascer em quem escuta.
Se eu pudesse voltar àquela sala hoje, seria para continuar a conversa. Diria ao professor que coloquei a ideia dele diante de Meier, diante de Crossan, diante dos textos e diante da apresentação que eu mesmo preparei em 2017. Algumas partes ficaram mais difíceis. Outras ficaram mais fortes.
Não foi a resposta que atravessou trinta anos. Foi a pergunta.
E agora é a sua vez. Escolha a convicção mais antiga que você carrega, aquela que veio de alguém que você admirava e que nunca passou por prova, e escreva-a em uma linha. Procure um autor com motivo para contradizê-la e leia até o fim. O que cair, deixe cair com o nome certo. O que ficar, passa a ser seu.
Foi o que fiz com a aula de 1996. Trinta anos depois, ela ainda não terminou.
Referências utilizadas no confronto
LOUREIRO, Carlos Bernardo. Jesus, o Mestre do Espírito. Obra utilizada como referência interpretativa na reconstrução do pensamento do autor.
MEIER, John P. Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico. Imago.
CROSSAN, John Dominic. O Jesus Histórico: A Vida de um Camponês Judeu do Mediterrâneo. Imago.
NOGUEIRA, Júlio N. Apresentação Pensamento Ético e Filosófico de Jesus e Kardec. 2017.
Saí daquela sala com as duas e passei trinta anos sem fazer com elas a única coisa que elas pediam. Repeti a ideia em conversas. Usei-a numa apresentação que preparei em 2017 sobre o pensamento ético e filosófico de Jesus. Sustentei-a em argumentos que já me pareciam meus. Nunca conferi.
É uma confissão desconfortável para quem vive de exigir prova dos outros. Passei três décadas com uma convicção cuja única credencial era a autoridade de quem a entregou.
Trinta anos não transformam lembrança em prova.
Chamo isso de Herança Não Auditada: a ideia que você carrega há tanto tempo que já não distingue se a sustenta porque ela resiste ao exame ou porque quem a disse tinha o direito de ser ouvido. Você tem a sua. Quem estudou com alguém que admirou tem pelo menos uma.
O exame
Trinta anos depois, resolvi colocar a minha diante do espelho. Voltei a Jesus, o Mestre do Espírito, de Carlos Bernardo, e levei o que encontrei ali a dois autores sem nenhum compromisso com a minha memória afetiva: John P. Meier, em Um Judeu Marginal, e John Dominic Crossan, em O Jesus Histórico.
Meier impõe logo uma cautela que aceito inteira. O Jesus real e aquilo que chamamos de Jesus histórico não são a mesma coisa: o segundo é reconstrução necessariamente fragmentária, erguida com as fontes que sobreviveram e com os instrumentos de que a investigação histórica dispõe. O problema não é exclusivo dele. Reconstruir Sócrates esbarra na mesma dificuldade, e pela mesma razão: nenhum dos dois deixou tratado escrito de próprio punho, e conhecemos ambos por outras vozes. Isso recomenda prudência sem proibir a pergunta.
Dois itens da minha herança não passaram.
O primeiro é a genealogia. Carlos Bernardo lia Jesus dentro de uma trajetória longa do pensamento, que vinha de Anaximandro e de Anaxímenes e passava sobretudo por Sócrates. Procurei nas fontes que examinei a demonstração dessa cadeia direta de transmissão intelectual e não encontrei. Ela precisa ficar onde lhe cabe: chave interpretativa associada ao pensamento do meu professor, e não fato histórico que eu possa simplesmente afirmar.
O segundo é a distinção entre fábula e parábola pelo critério do animal e do homem. A formulação é dele, e não a encontrei assim nem em Meier nem em Crossan.
Registro as duas coisas porque auditar serve exatamente para isto: separar o que se demonstra do que se interpreta, e deixar cada afirmação no lugar intelectualmente correto. A pergunta central, porém, não dependia de nenhuma das duas.
De Sócrates à parábola
Os primeiros filósofos gregos fizeram algo novo: passaram a interrogar racionalmente a realidade, formulando hipóteses, procurando princípios, discordando. Com Sócrates, o movimento muda de alvo e a pergunta se volta para o próprio homem. O que é justiça, o que é virtude, o que significa conhecer, como devemos viver. Deixa de bastar compreender o mundo; passa a importar como viver nele.
A aproximação que Carlos Bernardo fazia entre Sócrates e Jesus não supõe equivalência, e eles não são equivalentes. O que os aproxima está antes das respostas que oferecem: em ambos há um modo de fazer o interlocutor pensar. Sócrates pergunta, o interlocutor responde, vem nova pergunta, e a resposta começa a revelar as próprias insuficiências até que a certeza vire problema. A ironia abre espaço para a dúvida; a maiêutica convoca o interlocutor a participar da construção da compreensão. O conhecimento deixa de ser apenas aquilo que alguém deposita em você e passa a ser também o que nasce do seu próprio exercício de pensar.
Algo parecido acontece em determinadas construções atribuídas a Jesus. Alguém pergunta e espera resposta, mas recebe outra pergunta, uma imagem, uma situação concreta, uma história. O interlocutor precisa trabalhar: interpretar, reconsiderar, tomar posição.
É aqui que ficam as parábolas, e é aqui que a leitura de Carlos Bernardo resistiu ao exame. A parábola ocupa o centro do processo de comunicação. Jesus constrói a ideia dentro da história, em vez de ter a ideia pronta e procurar depois uma narrativa que a ilustre. A diferença é enorme.
Mais do que storytelling
Hoje descreveríamos parte desse mecanismo com uma palavra de mercado: storytelling. Personagem, contexto, tensão, escolha, consequência. Uma ideia abstrata vira experiência narrativa. A descrição está correta e é insuficiente. A função da parábola não parece ser apenas prender atenção ou facilitar memorização, porque a narrativa produz um deslocamento. Justiça ganha personagens; solidariedade ganha uma estrada; responsabilidade ganha talentos; perdão ganha uma dívida; compaixão ganha um homem ferido. O conceito deixa de existir só como conceito e passa a ser experimentado mentalmente por quem ouve.
E há o detalhe que muda tudo. O personagem decide dentro da história, e quem escuta precisa decidir fora dela.
O que eu faria?
Nesse ponto a parábola ultrapassa a narrativa e vira experiência ética.
Crossan oferece um exemplo que ajuda. Ao analisar a parábola da mostarda, sua preocupação é recuperar o efeito inesperado que aquela imagem tinha para o ouvinte original: a mostarda não é apenas a pequena semente que cresce, pois, dependendo da espécie e do contexto, podia evocar uma planta invasiva e inconveniente. A expectativa de quem ouvia é deslocada pela própria narrativa. A surpresa participa da construção da ideia.
Sócrates usa a pergunta para que o interlocutor descubra; Jesus usa a narrativa para que o interlocutor interprete. Num caso: pergunta, contradição, reflexão, descoberta. No outro: história, conflito, deslocamento, interpretação, descoberta. Nada disso demonstra que Jesus tenha reproduzido a maiêutica socrática, e não preciso afirmar aquilo que as fontes não demonstram. A comparação que interessa é outra: nos dois casos, o interlocutor participa intelectualmente do processo. Foi lendo Crossan sobre a tradição formada a partir de Jesus que encontrei a frase que me devolveu à sala de 1996 — Jesus deixou “pensadores, e não memorizadores”. Difícil formular melhor a pergunta que me acompanha desde aquele ano.
Uma moeda
Há um episódio que concentra boa parte dessa arquitetura. Perguntam a Jesus sobre tributo: é lícito pagar a César? A estrutura da pergunta oferece duas saídas prontas, sim e não, e ele não permanece dentro dela. Pede uma moeda e pergunta de quem é a imagem. Antes de responder, faz o interlocutor responder.
O detalhe é extraordinário: objeto, pergunta, observação, resposta de quem tinha vindo perguntar e, somente então, conclusão. Pedir a moeda é pedir uma imagem, e é diante de uma imagem que alguém acaba se examinando.
Crossan inclui a formulação sobre dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus entre os materiais relevantes de sua reconstrução das palavras atribuídas a Jesus. O que me interessa aqui, porém, está antes da frase final: está no caminho até ela.
A moeda é uma só. É sobre uma única realidade concreta que ele constrói a distinção entre César e Deus, duas dimensões reconhecidas sem confusão e sem que uma precise ser eliminada para que a outra seja admitida. A pergunta inicial era sobre tributo; a resposta terminou tratando de limites, pertencimento, responsabilidade e consciência.
Perguntaram sobre dinheiro. A resposta produziu filosofia.
Não escapo de certa ironia pessoal nesta história. Em 1996 ouvi Carlos Bernardo falar sobre ética. Trinta anos depois, advogado tributarista, volto àquela aula e encontro no centro da reflexão justamente um tributo e uma moeda. A vida também tem os seus storytellings.
O que a auditoria devolveu
A hipótese central resistiu. Jesus utilizava narrativas de maneira extraordinária; as parábolas transportavam problemas éticos por dentro de situações humanas; o ouvinte precisava participar da interpretação; a pergunta podia valer mais do que a resposta oferecida pronta. E o método de comunicação não era separável da ideia comunicada. Crossan registra inclusive uma avaliação de Jesus como grande contador de parábolas, destacando a originalidade formal atribuída ao seu ensino ético.
Carlos Bernardo estava olhando para um problema que continua intelectualmente vivo.
O que o exame me devolveu, porém, vale mais do que a confirmação. Parei de defender o meu professor e passei a pensar com ele. A parte que caiu, caiu sem estrago e agora tem o nome correto. A parte que ficou, ficou minha, não porque um professor a disse, mas porque aguentou o confronto.
Quando você auditar a sua herança, a sensação é essa: a ideia deixa de ser lealdade e passa a ser instrumento.
A sua vez
Hoje penso diferente sobre 1996. Na época eu acreditava estar assistindo a uma aula de Ética, e talvez estivesse. Mas Carlos Bernardo ensinava também outra coisa: como perguntar, como duvidar, como confrontar, como não confundir autoridade com verdade e como procurar a ideia por trás das palavras.
Esopo colocou o homem dentro dos animais. Sócrates colocou a pergunta dentro do homem. Jesus colocou o homem dentro da história.
Na fábula, o animal assume atributos humanos. Na maiêutica, a pergunta obriga o homem a procurar. Na parábola, o homem observa outro homem diante de uma escolha e, enquanto acompanha a história, começa a examinar a própria. Talvez tenha sido isso que Carlos Bernardo Loureiro percebeu: as parábolas são parte da arquitetura do pensamento de Jesus, e o núcleo ético e filosófico que lhe atribuímos está menos nas respostas e mais na capacidade de criar uma situação em que a resposta precisa nascer em quem escuta.
Se eu pudesse voltar àquela sala hoje, seria para continuar a conversa. Diria ao professor que coloquei a ideia dele diante de Meier, diante de Crossan, diante dos textos e diante da apresentação que eu mesmo preparei em 2017. Algumas partes ficaram mais difíceis. Outras ficaram mais fortes.
Não foi a resposta que atravessou trinta anos. Foi a pergunta.
E agora é a sua vez. Escolha a convicção mais antiga que você carrega, aquela que veio de alguém que você admirava e que nunca passou por prova, e escreva-a em uma linha. Procure um autor com motivo para contradizê-la e leia até o fim. O que cair, deixe cair com o nome certo. O que ficar, passa a ser seu.
Foi o que fiz com a aula de 1996. Trinta anos depois, ela ainda não terminou.
Referências utilizadas no confronto
LOUREIRO, Carlos Bernardo. Jesus, o Mestre do Espírito. Obra utilizada como referência interpretativa na reconstrução do pensamento do autor.
MEIER, John P. Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico. Imago.
CROSSAN, John Dominic. O Jesus Histórico: A Vida de um Camponês Judeu do Mediterrâneo. Imago.
NOGUEIRA, Júlio N. Apresentação Pensamento Ético e Filosófico de Jesus e Kardec. 2017.
Feed RSS