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A Obsessão e Seus Mistérios
 

A INTERPENETRAÇÃO FLUÍDICA NO PROCESSO OBSESSIVO

Sem um Espírito desencarnado quiser agir sobre uma pessoa, dela se aproxima, envolve-a com o seu perispírito, como num manto; seus fluidos a penetram, os dois pensamentos e as duas vontades se confundem e, então, o Espírito pode servir-se daquele corpo se fora o seu próprio, fazê-lo agir à sua vontade, falar, escrever, desenhar etc. Assim, os Espíritos agem com os médiuns.

Se o Espírito for bom, sua ação sobre o indivíduo será suave e benéfica e só fará boas coisas; se for mau fará maldades; se for perverso e mau, ele o constrange, até paralisar-lhe a vontade e a razão, que abafa com seus fluidos, como se apaga o fogo sob um lençol d’água. Fá-lo-á pensar, falar e agir por ele; leva-o contra a vontade a atos extravagantes ou ridículos; numa palavra, o magnetiza e o cataleptiza e o indivíduo se torna um instrumento cego de sua vontade. Tais são as causas da obsessão e da subjugação que se mostram em diversos graus de intensidade.

O paroxismo da subjugação é geralmente chamado de possessão. Deve notar-se que, neste estado, muitas vezes o indivíduo tem consciência do ridículo daquilo que faz, mas é constrangido a fazê-lo. Allan Kardec conta, a propósito, o seguinte:

Numa reunião em Bordeaux, em meio a uma evocação, o médium, um jovem de caráter suave e perfeita urbanidade, de repente começa a bater na mesa, com violência, levanta-se com olhar ameaçador, mostrando os punhos aos assistentes, proferindo pesadas injúrias e querendo atirar-lhes um tinteiro. A cena, tanto mais chocante quanto inesperada, durou uns dez minutos, depois do que, retornou à calma habitual, desculpou-se do que se havia passado, dizendo que sabia muito bem o que havia dito e feito, mas que não pudera impedir.

O caso foi levado à consideração dos Espíritos da “Sociedade Parisiense de estudos Espíritas” – SPEE. Os instrutores espirituais responderam que o Espírito que o havia provocado era mais farsante do que mau e que, simplesmente, tinha querido divertir-se, apavorando os assistentes.

Ainda nessa reunião, quiseram evocar o Espírito de Sr. Beck, um antigo chefe de orquestra do Teatro de Bordeaux, e pedir-lhe uma explicação sobre uma experiência mediúnica que tinha vivido durante vários anos antes de morrer, realmente um fenômeno singular. Todas as noites, ao sair do teatro, parecia-lhe que um homem lhe saltava ás costas, cavalgando as suas espáduas, até chegar à porta de casa. Aí, quando a entidade galhofeira descia de suas costas, o Sr. Beck se sentia aliviado. Foi, então, que o Espírito farsante achou por bem forçar o Sr. Beck, que era médium, a representar uma cena terrível, pois nele encontrou, sem dúvida, as necessárias disposições fluídicas para obedecer.

Aquilo que não passou de acidental, por vezes toma um caráter de permanência, quando o Espírito é mau, porque para ele o indivíduo se torna verdadeira vítima, à qual ele pode dar a aparência de real loucura. Dizemos aparência, porque a loucura propriamente dita sempre resulta de uma alteração dos órgãos celebrais, ao passo que, nesse caso, os órgãos estão intatos como os daquele jovem médium. Não há, pois, loucura real, mas aparente, contra a qual os medicamentos (sempre depressivos) são inoperantes, como o prova a experiência. Ao lado de todas as loucuras de natureza patológica, convém, pois, acrescentar a loucura obsessional, que requer meios especiais de tratamento.

Reportando-se ao que tratou no início de suas considerações, sobre a maneira por que age o Espírito, Allan Kardec oferece o exemplo de um médium envolvido e penetrado do fluido perispiritual de um mau Espírito. Para que o fluido do bom Espírito possa agir sobre o médium é necessário que penetre esse envoltório, e sabe-se que, dificilmente, a luz penetra um nevoeiro espesso. Conforme o grau da obsessão, o nevoeiro será permanente, tenaz ou intermitente, mais ou menos fácil de dissipar.

O correspondente da SPEE em Parma, Itália, Sr. Superchi, enviou a Allan Kardec dois desenhos feitos por uma vidente representando perfeitamente esta situação. Num, vê-se a mão do médium envolta numa nuvem escura, imagem do fluido perispiritual dos maus Espíritos, atravessada por um raio luminoso que vai clarear a mão. É bom fluido que a dirige e se opõe à ação do mau. No outro, a mão está na sombra; a luz está envolta do nevoeiro, que não pode penetrar.

Resta uma pergunta: por que os Espíritos protetores não forçam a retirada do(s) intruso(s)? Sem dúvida, o podem e, por vezes, o fazem. Mas, permitindo a luta, deixam o mérito da vitória ao assediado. Se deixam se debatendo pessoas de mérito é para provar sua perseverança e fazer que adquiram mais força no Bem. É para elas uma espécie de ginástica moral.

Em seguida, Allan Kardec responde a um coronel do Estado-Maior do exército austríaco, que o consultara sobre uma afecção atribuída a maus Espíritos:

No que concerne à moléstia que sofreis, não vejo prova evidente da influência de maus Espíritos, que vos obsidiariam. Admitâmo-la, pois, por hipótese. Só haveria uma força moral a opôr a outra força moral e aquela não pode vir senão de vós. Contra um Espírito é necessário lutar de Espírito a Espírito; e o mais forte vencerá. Em casos semelhantes é preciso esforçar-se por adquirir a maior soma possível de superioridade pela vontade, pela energia e pelas qualidades morais, para ter o direito de lhe dizer: “Vade retro!” Assim, se estiverdes neste caso, não será com a espada de coronel que o vencereis, mas com a espada do anjo, isto é, a virtude e a prece. A espécie de terror e angústia que experimentais nesses momentos é um sinal de fraqueza, de que o Espírito se aproveita. Dominai o medo e com a vontade triunfareis. Tomai a iniciativa resolutamente, como o fazeis contra o inimigo e crede-me, vosso muito dedicado e afeiçoado.

Há quem prefira métodos exóticos e ritualísticos de expulsar Espíritos, usando palavras sacramentais, fórmulas e talismãs. Aliás, os maus Espíritos se riem dessas práticas inúteis.

A verdade é que, como afirma Allan Kardec, antes de se dominar um mau Espírito, deve-se dominar a si mesmo. E, de todos os meios para adquirir a força de o conseguir, o mais eficaz é a vontade, secundada pela prece de coração e não aquelas nas quais a boca participa mais que o pensamento.

Seria justo que se apelasse para os espíritos bons, mas, não se deve esperar que eles, simplesmente, expulsem os obsessores. Faz-se mister rememorar o axioma: Ajuda-te e o céu te ajudará. “Ajuda-te” quer dizer: vencer as más inclinações, porquanto são exatamente elas que os atraem, como o podridão atrai as aves de rapina, na acepção de Allan Kardec. Outro expediente, também válido e estratégico, e orar pelos Espíritos obsessores, conforme, aliás, preconiza o Mestre Jesus. Desse modo, pode-se anular ou pelo menos minimizar, a ação deletéria do agressor, não se legitimando, assim, a violência. Entretanto, há casos de subjugação que paralisam a vontade do obsidiado. Em tais casos, torna-se imprescindível a desobsessão que se deve processar em um grupo espírita, idôneo, sério, responsável, estudioso da Doutrina Espírita e dos evangelhos.

O trabalho de doutrinação é penoso e demorado. Exige paciência de ambos os lados, especialmente da parte dos que conduzem o obsidiado à casa espírita. Surge, ao longo do tratamento desobsessional, uma série de impedimentos que devem ser vencidos com paciência e obstinação.

Outro fator importante a ser observado pelos dirigentes das reuniões de desobsessão é que, nos primeiros contatos, o assistido pode apresentar uma sensível piora. É o obsessor (ou grupo de obsessores) que reage, isto é, assume franca e refratária oposição ao tratamento. A sua indisposição, traduzida pela raiva e pelo inconformismoo, repercute, psíquica e organicamente, naquele que é, pelos menos aparentemente, a sua vítima. Cabe, então, aos responsáveis pela sessão, agir com muita cautela, esclarecendo o porquê do recrudescimento dos distúrbios que acometem o assistido. Tais esclarecimentos são absolutamente necessários, evitando-se a fuga do assistido e de seus prepostos das sessões, que, assim procedendo, fazem, infelizmente, o jogo dos Espíritos obsessores.

Esse mecanismo vem sendo observado pelo autor desta obra, há vários anos, na cidade do Salvador, nas sessões de desobsessão de que fez parte ou que dirige. Não raras vezes, os Espíritos logram êxito nos seus nefastos objetivos, ficando o obsidiado inteiramente à mercê dos seus desafetos, muitas vezes sedados e escravizados por poderosos e inibidores medicamentos. Essas criaturas, apáticas, deprimidas, vagam pelas dependências dos sanatórios psiquiátricos, pelos cômodos de seus apartamentos, pelos corredores de suas casa ou pelas ruas, como verdadeiros zumbis. Ainda que a situação que vivenciam, obsessores e obsidiados, seja desesperadora, sempre há uma saída, propiciada pela Lei Natural, acionando recursos que possibilitam a reconciliação entre os desafetos. Em casos extremos, os mecanismos da reencarnação são acionados, dando-se início ao sacrificial reajuste, que demanda tempo, muito tempo...

 
 

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