Mediunidade |
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ASPECTOS
FUNDAMENTAIS
TELMA – TEATRO ESPÍRITA LEOPOLDO MACHADO A mediunidade é uma realidade experimentalmente comprovada. Chave de ouro que nos abre as portas do Infinito, ela é, na concepção do mestre Allan Kardec, “para o mundo espiritual o que telescópio foi para o mundo astral e microscópio para o mundo dos infinitamente pequenos”. Após o advento do Espiritismo codificado, que a estudou por métodos científicos, a mediunidade é precioso instrumento de observação capaz de nos permitir o conhecimento de leis que regem o intercâmbio entre as humanidades dos dois mundos, o espiritual e o material.
DIFICULDADES DOS MÉDIUNS Elucida Kardec que uma das maiores dificuldades da mediunidade é a obsessão, ou seja, o domínio que certos Espíritos podem exercer sobre os médiuns, impondo-se a eles sob nomes falsos e impedindo-os de se comunicar com outros Espíritos. É ao mesmo tempo uma dificuldade para o observador novato e inexperiente que, não conhecendo as características desse fenômeno, pode ser enganado pelas aparências como aquele que, desconhecendo a Medicina, pode iludir-se sobre a causa e a natureza de um mal. Se o estudo prévio, nesse caso é útil ao observador, é indispensável ao médium, pois fornece-lhe os meios de prevenir um inconveniente que poderia ter para êle consequências deploráveis. Eis porque se recomenda o estudo antes e durante o exercício da mediunidade. A obsessão apresenta três graus principais bem caracterizado: a obsessão simples, a fascinação e a subjugação. No primeiro, o médium tem perfeita consciência de que nada de bom; não possui nenhuma ilusão sobre a natureza do Espírito que se obstina em manifesta-se e do qual deseja desembaraçar-se. Esse caso – acrescenta Kardec – não oferece nenhuma gravidade; é apenas um desajustamento. A fascinação obsessiva é muito mais grave, porquanto o médium fica completamente iludido. O Espírito que o domina controla a sua confiança a ponto de impedir o seu próprio julgamento no tocante às comunicações, levando-o a achar sublimes as coisas mais ridículas. O caráter destrutivo desse gênero de obsessão é o de provocar no médium uma excessiva susceptibilidade, de levá-lo a achar exato e verdadeiro o que fala e escreve, a repudiar, com veemência, qualquer conselho ou observação crítica; a romper com seus amigos em vez de concordar que está enganado; a alimentar inveja contra outros médiuns, cujas manifestações são consideradas melhores que as suas; a querer impor-se nas reuniões espíritas, das quais se afasta quando não pode comandá-las. Chega, enfim, a sofrer uma dominação de tal porte que os Espíritos podem levá-los a situações ridículas e comprometedoras. A subjugação obsessiva, designada outrora sob o nome de possessão, é uma coação física exercida sempre por Espíritos da pior espécie (expressão de Kardec), e que pode ir até à neutralização do livre arbítrio. Limita-se, frequentemente, a simples expressões desagradáveis, mas provoca atos insensatos, gritos, palavras incoerentes ou injuriosas, das quais a pessoa subjugada compreende por vezes todo o ridículo (e o perigo que corre) mas não pode deixar de fazê-los. Esse estado difere, essencialmente, da loucura patológica, com a qual se confunde sem razão, pois não existe nenhuma lesão orgânica. Sendo a causa diferente, os meios de a combater são outros. Aplicando-se os meios convencionais, ditados pela psiquiatria, chega-se, frequentemente, a provocar uma verdadeira loucura onde só haveria consequências morais. Na loucura propriamente dita – adverte Kardec – a causa do mal é interior. Na subjugação, a causa do mal é exterior; é preciso desembaraçar o doente do inimigo invisível não com remédios, mas com uma força moral superior à sua. A experiência demonstra que, em tais casos, os exorcismos jamais produziram resultados satisfatórios e mais agravaram do que melhoraram a situação. O Espiritismo indicando a verdadeira causa do mal, é o único que pode fornecer os meios de combatê-lo. É preciso, de alguma forma, proceder à educação moral do obsessor, adotando-se uma metodologia lógica, coerente, sem pieguismos, mas com energia e segurança, evidenciando o erro que vem cometendo contra os dispositivos da lei natural. Deve-se observar que todo
médium obsidiado deve ter sofrido de uma maneira qualquer, e muitas
vezes nos atos mais vulgares da vida, os efeitos dessa influência;
que, sem a mediunidade, ele se traduziria por outros efeitos, atribuídos
muitas vezes, àquelas doenças misteriosas que escapam a
todas as investigações da medicina. Pela mediunidade, o
ser malfeitor trai a sua presença; sem a mediunidade é um
inimigo oculto, do qual não se desconfia. Como a obsessão não pode jamais ser o efeito de um bom Espírito, a questão essencial é saber reconhecer a natureza daqueles que se apresentam. O médium não esclarecido pode ser enganado pelas aparências; o que está prevenido percebe os menores sinais suspeitos, e o Espírito acaba por se retirar quando sente que nada conseguirá. O conhecimento prévio dos meios que possibilitam ao médium saber com quem está lidando, preserva-o de sofrimentos e revezes. Deve-se observar que nem os médiuns mais merecedores estão ao abrigo das mistificações dos Espíritos enganadores. Primeiro porque não há ninguém suficientemente perfeito para não possuir um lado fraco, pelo qual possa dar acesso aos maus(e espertos) Espíritos; em segundo lugar, os bons Espíritos o permitem, às vezes, para que eles exerçam seu julgamento, aprendam a discernir a verdade do erro e manter a desconfiança, a fim de não aceitarem nada cegamente, sem exame e controle; isso pode ainda ser uma prova para a paciência e a perseverança de todo médium. Aquele que se desencoraja por alguma decepção, provará aos bons Espíritos que não podem contar com ele. A propósito dessas admoestações, Kardec relata, na “Revista Espírita” de setembro de 1859, o seguinte e elucidativo caso: “Um dia veio ver-me
um senhor que eu não conhecia, e me disse que era médium.
Recebia comunicações de um Espírito muito elevado,
que o tinha encarregado de vir a mim, fazer uma revelação
relativa a uma trama que, na sua opinião, era urdida contra mim,
por parte de inimigos secretos que designou. E acrescentou: < Quer
que escreva em sua presença?> - Com prazer respondi eu. Mas,
para começar, deve dizer-lhe que esses inimigos são menos
temorosos do que o senhor supõe. Sei que os tenho. Quem não
os tem? E os mais encarniçados em geral são aqueles a quem
mais beneficiamos. Tenho consciência de jamais ter feito voluntariamente
mal a alguém. Aqueles que me fizeram mal não poderão
dizer o mesmo, e entre nós, Deus será juiz. Contudo, vejamos
o conselho que o Espírito quer dar-me. Então aquele senhor
escreveu o seguinte: É bastante, disse-lhe
eu; não vale a pena continuar. Este exórdio é suficiente
para mostrar o tipo de Espírito com quem o senhor está tratando.
Direi apenas uma palavra: para um Espírito que quer ser astucioso,
êle está muito desajeitado. Não sei se o cavalheiro aproveitou o aviso, - conclui Kardec – porque não o vi mais, nem ao seu Espírito. Eu não terminaria nunca se fosse contar todas as comunicações desse gênero que me têm sido submetidas, por vezes muito seriamente, como emanadas dos santos, da mãe de Jesus e do próprio Jesus. E seria realmente curioso ver as torpesas levadas à conta desses nomes respeitáveis. É preciso ser cego para enganar-se quanto à sua origem, quando muitas vezes, uma única palavra equívoca, um único pensamento contraditório bastam para fazer descobrir a mentira a quem se der o trabalho de refletir.” O Codificador oferece ainda, esclarecedores exemplos, mensagens apócrifas, assinadas por Vicente de Paulo, Napoleão, Bossuet e Jesus. Eis, a propósito, as mensagens atribuídas ao “Mestre”, submetidas à apreciação da SPEE(Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas): “Filhos de minha fé, cristãos da minha doutrina esquecida sob as ondas interesseiras da filosofia dos materialistas, segui-me pelo caminho da Judéia, segui a paixão de minha vida, contemplai agora os meus inimigos, vede os meus sofrimentos, os meus tormentos e o meu sangue derramado pela minha fé.” “O vale de lágrimas
e um vale que deve desaparecer para dar lugar à brilhante morada
da alegria, da fraternidade e da união, à qual, por vossa
obediência à santa revelação, chegareis. A
vida, meus caros irmãos, nesta esfera terrestre, inteiramente preparatória,
não pode durar mais que o tempo necessário para se viver
bem preparado para essa vida que não poderá jamais passar.
Amai-vos como eu vos amei, irmãos! Eu vos abençoo; no céu
vos espero!” “Destas brilhantes
e luminosas regiões em que o pensamento humano mal pode chegar,
o éco de vossas palavras e das minhas veio tocar o meu coração” “Sede benditos, vós que hoje tomais lugar na família regenerada! Ide, coragem, filhos!”
Jesus É notável – acrescenta Kardec – que, desde a publicação de “O LIVRO dos Médiuns”, os médiuns obsidiados são muito menos numerosos, pois, estando prevenidos, conservam-se atentos e percebem os menores sinais que possam trair a presença de um Espírito enganador. A maior parte dos obsidiados não estudou previamente o referido livro ou outro qualquer que o advirta de perigos iminentes em função do exercício da Mediunidade. O que constitui o Médium propriamente dito, é a faculdade; sob esse aspecto, ele pode ser mais ou menos formado mais ou menos desenvolvido. O que revela o médium seguro, aquele que se pode verdadeiramente qualificar de bom médium, é a aplicação da faculdade, a aptidão de servir de intérprete aos bons Espíritos. À parte sua faculdade, o poder do médium para atrair os bons Espíritos e repelir os maus está na razão de sua superioridade moral. Esta superioridade é proporcionada pela soma de qualidades que fazem o homem de bem; por elas, ele atrai a simpatia dos bons e exerce ascendência sobre os maus. Pela mesma razão, a soma das imperfeições morais do médium, aproximando-o da natureza dos maus Espíritos, tira-lhe a influência necessária para afastá-los. Em vez de ser o médium que se impõe aos maus Espíritos, são estes que se impõem a ele. Isto se aplica não somente aos médiuns, mas a qualquer pessoa, pois não há nenhuma que não sofra a influência dos Espíritos. Para se imporem ao médiuns os maus Espíritos sabem explorar habilmente todos os seus defeitos morais. O que lhes dá mais facilidade de se aproximarem é o orgulho. É também este o sentimento que domina o maior número dos médiuns obsidiados, mas sobretudo naqueles que estão fascinados. É o orgulho que os leva a crer em sua infabilidade e a repetir os conselhos. Infelizmente, esse sentimento é excitado pelos elogios de que são alvo. Quando possuem uma faculdade um tanto aprimorada são procurados e adulados: olham no como indispensáveis, verdadeiros gurus, e é justamente isso que os leva à obsessão e se perdem nos seus obscuros labirintos. Adverte Kardec que a faculdade mediúnica é um dom de Deus, como todas as outras faculdades, que podem ser empregadas tanto para o bem como para o mal. Ela tem como objetivo colocar-nos em contato direto com as almas dos que viveram, a fim de recebermos seus ensinamentos e nos iniciarmos na vida futura. Assim como a visão nos coloca em contato com o mundo visível, a mediunidade nos pões em contato com o mundo invisível. Quem dela se serve com um fim útil, para o seu adiantamento e o de seus semelhantes, cumpre uma verdadeira missão, da qual terá a recompensa. Aquele que dela abusa e a emprega para coisas fúteis, e visando interêsses materiais a desvia de sua finalidade providencial e, cedo ou tarde, sofrerá as penas, como aquele que faz um mau uso de uma faculdade qualquer.
O CHARLATANISMO Kardec ainda chama a atenção para o charlatanismo, afirmando que certas manifestações prestam-se muito facilmente à imitação, mas por terem sido exploradas, como tantos outros fenômenos, pelo charlatanismo e a prestidigitação, seria absurdo concluir que elas não existem. Para quem estudou e conhece as condições normais em que elas podem se produzir, é fácil distinguir a imitação da realidade. A imitação, de resto. Jamais poderia ser completa e só pode enganar ao ignorante, incapaz de perceber as nuances característica do verdadeiro fenômeno.
Aqueles que não conhecem o Espiritismo são geralmente levados a suspeitar da boa fé dos médiuns. O estudo e a experiência fornecem-lhes os meios de se assegurarem da realidade dos fatos; mas, além disso, a melhor garantia que podem encontrar é o desinteresse absoluto e a honradez do médium. Há pessoas que, por sua posição e seu desinteresse absoluto e a honradez do médium. Há pessoas que. Por sua posição e seu caráter, escapam a qualquer suspeita, a exemplo do médium Daniel Dunglas Home cuja trajetória de extraordinários fenômenos, jamais foi flagrado em fraude, embora a fiscalização dos pesquisadores, durante as sessões de que participava, fosse implacável. Se o atrativo do lucro pode levar à fraude, o bom senso diz que, onde nada há a ganhar, o charlatanismo nada tem a fazer. A propósito, vale a pena, a título de instrução e reflexão, conhecer o pensamento de Kardec sobre os médiuns interesseiros cujas atitudes ambiciosas atraem Espíritos mistificadores e charlatães. Na primeira linha dos médiuns interesseiros – observa Kardec – devem colocar-se aqueles que fazem de sua faculdade uma profissão, dando consultas remuneradas. O Codificador afirma (vide “Revista Espírita” de março de 1859) que não conhece esse tipo de médium, pelo menos na França. Como, porém, tudo pode tornar-se objeto de exploração, - admite – não seria de admirar que um dia quisessem (e o tempo demonstrou que realmente quiseram) explorar os espíritos...e os encarnados imprevidentes. Resta saber – prossegue o mestre lionês – como eles encarariam o fato, se acaso tentassem proceder tão desonestadamente; compreende-se quanto isto representaria de aviltante. E deve-se convir que os Espíritos esclarecidos jamais se prestariam aos caprichos dos que os evocassem “a tanto por hora”. O simples bom senso repele uma tal suposição. Entretanto, os Espíritos levianos, mentirosos, farsantes, zombeteiros e toda a sorte de Espíritos inferiores atendem, de pronto, às evocações desses médiuns inescrupulosos, que terminam se enredando nas malhas da obsessão. O fim desses médiuns é sempre trágico, a exemplo do que ocorreu a vários deles, detentores de notável faculdade mediúnica, no Brasil, que encontraram (ou foram levados à morte de modo absurdo e estúpido. A mediunidade é uma faculdade que deve ser canalizada para o bem e os Espíritos superiores se afastam, sempre, de quem quer que pretenda transformá-la em escada para o sucesso material, usufruindo de um tipo de vida conquistada à custa do sofrimento de multidões de desesperados, consumidas por terríveis enfermidades, ante as quais a medicina oficial se queda impotente.
A INFLUÊNCIA DO MÉDIUM NAS MANIFESTAÇÕES Kardec, mediante criteriosa observação, adverte que é preciso inteirar-se da maneira como se opera a transmissão do pensamento dos Espíritos, para compreender-se o papel do médium nas manifestações. O Espírito possui um envoltório semi-material, a que o Codificador denominou de Perispírito. O fluido condensado, por assim dizer, em redor do Espírito, para formar esse invólucro, é o intermediário pelo qual ele atua sobre os corpos. É o agente de seu poder material e é através dele que produz os fenômenos físicos. O Espírito pode exprimir diretamente seu pensamento pelo movimento de um objeto ao qual a mão do médium serve apenas de ponto de apoio; ele pode fazê-lo mesmo que esse objeto não esteja em contato com o médium (psicocinesia). A transmissão do pensamento dá-se também por meio do Espírito do médium, ou melhor, de sua alma, visto que Kardec designou sob este nome o Espírito encarnado. O Espírito, então, atua sobre a alma com a qual se identifica, que, sob este impulso, dirige a mão, em caso de trabalhos de psicografia, em sua variada gama de expressão. Deve-se observar porém, que o Espírito não se substitui à alma, pois lhe é impossível desalojá-la: ele a controla, imprimindo a sua vontade. Mas, a alma, como Espírito, mesmo encarnado, pode perfeitamente ter consciência da ação exercida sobre ela por um Espírito estranho. O papel da alma, nessa circunstância, é, algumas vezes, passiva e então o médium, se é de incorporação, não tem consciência do que escreve ou do que fala. Ocasionalmente, entretanto, a passividade não é absoluta; então o médium tem uma consciência mais ou menos vaga do que escreve ou fala. “Se é assim”, acrescenta Kardec, “dir-se-á, nada prova que seja um espírito estranho que escreve ou fala e não o do médium.” E acrescenta: “Aqui é o lugar de analisar um erro cometido por algumas pessoas. Nós o diremos, pois, que pode acontecer que a alma do médium se comunique como o faria um Espírito estranho. E isso se concebe facilmente. Visto que podemos evocar o Espírito de pessoas vivas ausentes e presentes, e como esse Espírito se comunica pela escrita ou pela palavra do médium, porque o Espírito encarnado no médium não se comunicaria igualmente? Os fatos provam que, em certas circunstância, isso se dá, como no sonambulismo, por exemplo. Segue-se daí que a comunicação feita pela alma do médium tenha menos valor? De modo nenhum. O Espírito encarnado no médium pode ser mais elevado do que certos Espíritos estranhos e, assim, dar comunicações.” Neste caso ele fala como Espírito desligado da matéria, e não como homem”. “Se o médium, quanto à execução” – elucida Kardec – “é apenas um instrumento que ele exerce sob outro ponto de vista, uma influência muito grande. Visto que, para se comunicar, o Espírito estranho se identifica com o do médium; essa identificação não pode se dar se não há entre eles afinidade. A alma exerce sobre o Espírito estranho uma espécie de atração ou de repulsão, segundo o grau de sua similitude ou dessemelhança; ora, os bons Espíritos têm afinidade com os bons e os maus com os maus (os semelhantes atraem os semelhantes e os contrários se repelem); donde se segue que as qualidades morais do médium têm uma influência capital sobre a natureza dos Espíritos que se comunicam por seu intermédio. Se ele é vicioso, os espíritos inferiores vêm agrupar-se em tono dele e estão sempre prontos para tomar o lugar dos bons Espíritos que foram chamados. As qualidades que atraem os bons Espíritos, são: a bondade, a benevolência, a simplicidade de coração, o amor ao próximo e o desprendimento das coisas materiais. Os defeitos que os repelem são: o egoísmo, a inveja, o ciúme, o ódio, a cupidez, a sensualidade, e todas as paixões pelas quais o homem se prende à matéria. Um médium por excelência seria, pois, aquele que, com facilidade de execução, reunisse no mais alto grau, as qualidades morais.” A influência do Espírito do médium pode exercer-se de outra maneira. Se ele é hostil ao Espírito estranho que se comunica, pode lhe ser um intérprete infiel, alterar-lhe ou disfarçar-lhe o pensamento, ou transmiti-lo em termos impróprios. O mesmo se dá entre nós quando se encarrega um homem de má-fé, de uma missão de confiança. A faculdade mediúnica, levada embora em alto grau de desenvolvimento, não basta, pois, para garantir boas comunicações. É necessário, antes de tudo e como uma condição expressa, um médium simpático aos bons Espíritos. A repulsão destes para com os médiuns inferiores, do ponto de vista moral, se concebe facilmente.
O LOCAL DAS REUNIÕES Não há lugares especiais e misteriosos para as reuniões espíritas, adverte Kardec. E diz mais: Deve-se evitar aqueles que, por sua natureza, forem próprios para impressionar a imaginação. Os Espíritos esclarecidos vão a toda a parte onde a sensatez e a verdadeira caridade os chamaram para o bem; e quanto aos maus, estes não tem predileção, senão pelos ambientes onde encontram receptividade. Os cemitérios exercem mais influência sobre o nosso pensamento – prossegue Kardec – do que sobre os Espíritos e a experiência demonstra que estes visitam tanto o quanto mais simples e destituído de aparatos diabólicos quanto os túmulos e as capelas em ruínas, em pleno dia como à luz da lua. É conveniente manter o local das reuniões e não fazer mudanças desnecessárias. O fluido vital de cada Espírito errante ou encarnado é, de certo modo, um foco que irradia, à sua volta, pelo pensamento. Concebe-se, pois, que, em um local permanente deve haver um eflúvio desse fluido que forma, por assim dizer, uma atmosfera moral com a qual os Espíritos se identificam. Quanto aos objetos que servem à decoração, tudo quanto pode elevar o pensamento e lembrar o assunto de que nos ocupamos é útil. Mas note-se que todos os arranjos e ornamentações que cheirem à magia, são absurdos. Os Espíritos que recomendam decorações desse gênero, ou qualquer prática mística, são Espíritos inferiores que se divertem com a credulidade ou que se encontram, certamente, condicionados pelas idéias e valores que cultivaram quando ainda em vida. Se em outros tempos, cercavam o contato com os Espíritos de rituais esotéricos, era porque se procurava manter o intercâmbio entre as duas esferas da existência à distância do povo e, simultaneamente, ganhar prestígio aos olhos dos ignorantes. A prática espírita veio redimensionar, em bases naturais, esse processo, o que suscitou (e vem suscitando), a partir de então uma série de reações, de modo especial de parte dos religiosos. Por outro lado, é comum encontrarmos pessoas dotadas de mediunidade, que, pressionadas por crenças irracionais, atribuem as manifestações psíquicas à ação do demônio. Acreditam nas patranhas que lhes infligem os interessados em negar a realidade espírita. Essas criaturas muitas vezes se tornam vítimas de Espíritos inferiores, alguns brincalhões apenas, outros entretanto inclinados ao mal. Como são médiuns naturais, tornam-se joguetes nas mãos desses perigosos Espíritos. Convencem-se de que são perseguidos por demônios. Suas atitudes se inscrevem, então, no rol daqueles capitulados pela psiquiatria. “Conhecemos seis irmãs” – informa, a propósito, Kardec – “que moravam junntas e que, durante muitos anos, todas as manhãs encontravam suas roupas espalhadas, rasgadas e cortadas em pedaços, por mais que tomassem a precaução de trancá-las à chave. A muitas pessoas tem acontecido que, estando deitadas, mas completamente acordadas, lhe sacudam os cortinados da cama, tirem com violência as cobertas, levantem os travesseiros e mesmo os joguem fora do leito. Fatos destes são muito mais frequentes do que se pensa; porém ao mais das vezes, os que deles são vítimas nada ousam dizer, de medo do ridículo. Por causa desses fatos se tem pretendido curar, como atacados de alucinação, alguns indivíduos, submetendo-os ao tratamento a que se sujeitam os alienados, o que os torna realmente loucos. A Medicina não pode compreender estas coisas, por não admitir, entre as causas que as determinam, senão o elemento material; donde erros frequentemente funestos. A história descreverá um dia certos tratamentos em uso no século dezenove, como se narram hoje processos de cura da Idade Média.” Afirma, ainda, Kardec que em geral, é um erro ter-se medo. “A mediunidade uma vez constatada, deve ser objeto de observação e posterior exercício, mediante segura metodologia. Afirmam os mais autorizados autores espíritas que o trabalho mediúnico faz bem ao médium, “porque o descarrega do excesso de carga psíquica e também porque lhe dá oportunidade de conceder aos Espíritos tarefas salutares.” Ademais, um médium estudioso e cônscio da realidade de seu potencial mediúnico, bem como de seu caráter cristão, não tem medo dos Espíritos perturbadores. Enfrenta-os com serenidade e confiança, tendo a certeza de que é ajudado, nesse sentido, pelas entidades esclarecidas.” Entretanto, a pessoa que chegou a exercitar a sua faculdade mediúnica, e deixou de fazê-lo, envereda, comumente, pelo caminho perigoso do desequilíbrio emocional e psíquico, predispondo-se à obsessão. Por outro lado, a pessoa que advertida de que é médium e não procura, por ter medo, exercitar-se, fica à mercê da influência perniciosa e desequilibrante de Espíritos oportunistas, que até alimentam, mediante sugestões psíquicas, os seus temores. O certo seria integrar-se a uma instituição espírita série e aí, sob orientação de dirigentes estudiosos e Espíritos esclarecidos, exercitar a sua natural faculdade. Temos observado que pessoas inquietas, nervosas, irritadas melhoram, paulatinamente, à proporção em que exercitavam, com regularidade, a sua faculdade mediúnica, identificando-se com a esfera espiritual e reiterando, com disposição e boa vontade o contato com seres invisíveis. O escritor Indalício Mendes, em memorável artigo inscrito em “Reformador”, afirma, criterioso, que “o exercício mediúnico exige a retificação de costumes, a disciplina dos hábitos, a modificação das práticas, ao mesmo tempo que aconselha a renúncia a muitas e muitas superfluidades mundanas. É preciso ter a alma forte para entregar-se alguém ao apostolado mediúnico. Os que insistem e perseveram nesse bom rumo, colhem muito cedo os frutos do seu trabalho e não mais abandonam as tarefas mediúnicas sobrepondo-as a tudo o mais. E são justamente essas que vão, não raro, ajudar os médiuns rebeldes ou pusilânimes, que se recusam ao testemunho cotidiano ou semanal, inovando meios indefensáveis.” Há real vantagem no exercício freqüente da mediunidade. Estabelece-se uma adequada interação entre o médium e os Espíritos Comunicantes, favorecendo, destarte, o aprimoramento das relações entre o encarnado e os desencarnados. Outro aspecto não menos digno de atenção refere-se aos médiuns que desistem dos exercícios mediúnicos, porque “não conseguem receber comunicações.” Há efetivamente, casos em que o médium, embora o deseje, não conseguirá estabelecer contato com os Espíritos, porque sua mediunidade é de outra natureza. Kardec classificou-o de médium excitador, que têm a faculdade de influenciar outros médiuns, contribuindo, conquanto não o perceba, para intensificar o processo de intercâmbio mediúnico. Convém, portanto, que o médium persista nos exercícios, procurando identificar a sua faculdade em “O LIVRO DOS MÉDIUNS”, obra indispensável e obrigatória para o conhecimento dos trâmites complexos da mediunidade. É necessário que os médiuns não esqueçam que não devem torcer o destino que lhes está reservado. Sua finalidade é sagrada. Por isso cumpre-lhes estar dentro das nobres aspirações do bem; sempre prontos a dissipar as trevas do obscurantismo; sempre dispostos para levantar o ânimo dos desesperançados e aflitos, infundindo-lhes fé e confiança; para aclarar os mistérios da personalidade humana e para revelar aos homens de boa e má vontade as luzes da consciência despertada para as realidades espirituais. Se analisarmos a alta finalidade do medianato, o papel que lhe está reservado na vida de relação humana, não se admitirá que interesses subalternos possam desviá-lo de sua trajetória abençoada e gloriosa. A mediunidade está destinada, fundamentalmente, a esclarecer o mistério da imortalidade. Os médiuns devem ter o maior cuidado para que os fenômenos que se produzem por seu intermédio sejam a fiel expressão do mundo espiritual; eles são so porta-vozes desse mundo. São eles, os médiuns que conduzirão a Humanidade a uma firme orientação espiritualista, despojada de formalismos, rituais e dogmas. Pela mediunidade, todos os homens verão seu futuro, porque sendo ela a chave que abre as portas da imortalidade, fará com que todos procedam a uma amadurecida reflexão dos seus atos, modifiquem sua conduta para se ajustar às leis da própria evolução. Pela açã mediúnica os homens observarão o muito do que são capazes os Espíritos na manifestação da matéria ponderável ou imponderável; de como eles a fazem servir a seu objetivo, produzindo múltiplos e diversificados fenômenos supranormais. Esses fenômenos ainda provocam, a despeito do tempo e de sua divulgação sistemática, o ceticismo dos homens de ciência, precisamente por não estarem na ordem dos nossos conhecimentos e de nossas investigações. Quanto mais se pesquisa a mediunidade, mais nos convencemos do seu valor nas investigações do Além, pois sem ela seria impossível chegar-se à certeza da imortalidade. É conveniente, porém, observar, que a investigação supranormal está ao alcance de qualquer pessoa inculta ou analfabeta, e que os fenômenos se dão a qualquer hora e em qualquer circunstância, à nossa vontade e capricho. É preciso destacar e insistir que os fenômenos espíritas requerem um tratamento específico; que esse tratamento é de ordem técnica; que sua investigação, estudo ou classificação são de categoria científica, e deram nascimento a um novo ramo do saber humano: a “Ciência Psíquica”, na Inglaterra; “Investigação Psíquica”, nos Estados Unidos; “Metapsíquica”, na França; “Biopsíquica”, na Itália e “Parapsicologia” na Alemanha. Carlos Bernardo Loureiro
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