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Espírita e/ou Cidadão
 
Dir-se-ia que o espírita vive duplamente – como espírita e cidadão: de um lado, adota posturas, já cristalizadas, no seio do Movimento de que faz parte; e, do outro, aquelas consagradas pela Sociedade onde vive, trabalha, constitui família e exerce os seis direitos e deveres políticos e sociais.
 

Não vai, uma crítica, de jeito nenhum. Muito pelo contrário. Até por que, essa atitude dissociativa tem, convenhamos, a sua razão de ser, simplesmente porque os valores que perfilha, e objetivados no âmbito do Movimento, não se coadunam, como seria desejável, com aqueloutros vigentes na Sociedade. Estes, em verdade, vêm sendo pragmatizados ao extremo, visando tornar a pessoa um ser coletivizado. Perde-se a identidade, e todos seguem normas de conduta cada vez mais padronizadas, sem que haja uma efetiva participação individual. Há quem afirme que a Sociedade tende para uma espécie de robotização, fruto dos avanços tecnológicos e científicos, que não tem em mira o indivíduo, mas, sobretudo, a coletividade. E essa perda gradual e alienante da individualidade tem os seus méritos, em termos de progresso material, mas, simultaneamente, provocam íntimos e perturbadores conflitos, que vêm enchendo as salas de espera dos psicoterapeutas. A propósito, fazer análise, em seus variados e estranhos tipos, promover reencontro do indivíduo consigo mesmo, com os seus valores perdidos ou absorvidos pela máquina voraz do tecnicismo, exigente, castrador, impessoal.

Diríamos que o espírita, em particular, sente que todo esse processo pode lhe criar sérios problemas, a partir do momento em que tenta, sadia e cristãmente, posicionar-se, como tal, em meio à Sociedade. A maioria de retrai, não certamente com medo, mas motivado pela prudência. É só analisar, fria e com imparcialidade, o que vem acontecendo à nossa volta, e vamos identificar as razões desse retraimento. Pontifica, aqui e ali, em toda a parte, uma série de intermináveis “aberturas”, em que desponta uma incontrolável (e mórbida) necessidade de substituir-se “velhos e ultrapassados tabus!” pela permissividade. E tudo já chegou a tal ponto que confundem liberdade com desrespeito, tolerância com sobrevivência, amor com sexo, humildade com covardia, e assim por diante.

E vale relembrar, como oportuno, o que ocorreu ao tempo do Cristo, quardando-se, evidentemente as devidas proporções. A sua mensagem propunha valores que se distanciam, e muito, daqueles instituídos à época. Estabeleceu-se o conflito entre uns e outros, com graves consequências para os seguidores da “Boa Nova”, não conseguindo, os postulados cristãos, apesar de todos os pesares, fazerem-se atuantes e seguidores até hoje ...

Estas breves linhas certamente não pretendem esgotar o assunto. Haverá, acreditamos, quem discorde de nossas postulações. Mas o problema está em aberto, e precisamos encara-lo face a face. Que surjam os “experts” e dêem a sua opinião ou por outra, que o enfoquemos em nossos costumeiros Encontros, Congressos etc., a fim de, pelo menos, sabermos até que ponto se deve ser espírita nessa nossa Sociedade, que se corrompe e que se avilta, dia para dia, em detrimento dos nobres objetivos a que todos – espíritas e não-espíritas – estão comprometidos a atingir, a benefício da causa do progresso moral, intelectual e espiritual, segundo os ditames das Leis de Deus.

 
     
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